1.1 A esclerose
múltipla (EM) é uma doença desmielinizante inflamatória crônica, auto-imune,
confinada ao sistema nervoso central (SNC). As proteínas da bainha de
mielina
constituem os alvos das agressões.
1.2 Sexo
As mulheres são acometidas duas vezes mais que os homens.
1.3 Idade
Início predominante entre 20 e 40 anos.
1.3 Distribuição
geográfica
1.3.1 Populações de alto risco
Europa Central e do Norte, da Itália,
do norte dos Estados Unidos, do Canadá, do Sul da Austrália, de parte da União
Soviética e da Nova Zelândia são consideradas de alto risco.
1.3.2 Populações de médio risco.
Sul da Europa, o sul dos Estados
Unidos, o norte da Austrália, partes da União Soviéticas e África do Sul.
1.2.3 Populações de baixo risco
África, a Ásia, o Caribe, o México e, possivelmente, a
América do Sul.
1.4
Imunogenética e Fatores Ambientais
Etiologia
da doença aé desconhecida.
Possibilidade: doença autoimune decorrente da interação de um ou mais fatores ambientais.
1.4 Modelo
experimental
Encefalite
alérgica experimental (EAE).
Induzida em camundongos, ratos e cobaias pela inoculação de
componentes da bainha de
mielina
do sistema nervoso central (SNC) - proteína
básica da
mielina
(PBM), proteína proteolipídica (PLP) e glicoproteína da
mielina do oligodendrócito (MOG
1.6 Manifestações
Clínicas
A
maioria dos pacientes (85%) apresenta-se inicialmente com a forma
recorrente-remitente (EMRR), caracterizada por períodos de manifestação de
sintomas neurológicos com recuperação plena ou com déficits residuais.
Ao
longo de 10 anos, 50% dos pacientes com EMRR passam a apresentar o componente
progressivo da doença, fase que se convencionou chamar de progressiva
secundária (EMPS).
Cerca
de 10% dos pacientes com EM apresentam a forma progressiva primária (EMPP), que
evolui, desde a sua instalação, com períodos de agravamento, sem remissões.
Um
pequeno grupo de pacientes com EM evolui desde o inicio com episódios agudos de
piora (surto), associados a progressão (EMSP).
O
primeiro episódio clínico, associado a desmielinização, é referido como
síndrome inflamatória desmielinizante (SID). Sua caracterização pode ser feita
através de ressonância magnética (RM) e sua investigação deve incluir o estudo
do líquido cefalorraqueano (LCR).
1.7
Formas de Apresentação Clínica da EMRR
Síndrome Medular
Neurite Óptica
Síndrome de Tronco
Cerebral
1.8 O que
causa os sintomas?
Os
sintomas são decorrentes de desmielinização e lesão axonal, cujo corolário
eletrofisiológico é a redução da velocidade de condução do impulso nervoso e o
bloqueio da condução. A melhora dos sintomas ocorre por redução da inflamação
(edema) e pela remielinização. A lesão axonal pode ser precoce. A axonopatia e
a capacidade limitada de remielinização constituem as razões principais para os
déficits residuais e a perda progressiva da capacidade funcional.
1.9 Patologia
Lesões caracterizadas por infiltrado inflamatório com
linfócitos T, macrófagos, linfócitos B e axônios desmielinizados,
circunjacentes a uma vênula, são a marca registrada da patologia da EM.
Predileção pelas seguintes regiões: periventriculares, corpo
caloso, nervos ópticos, medula espinhal, cerebelo e tronco cerebral. As lesões
têm forma arredondada ou oval e quando vistas no plano sagital podem adotar o
formato de dedos a partir do corpo caloso por se estenderem ao longo das veias
que se dirigem para a região subependimária dos ventrículos laterais.
As lesões desmielinizantes são heterogêneas entre pacientes,
mas as lesões ativas do mesmo paciente são semelhantes entre si.
1.10 Ressonância
Magnética
1.10.1 Imagens

Figura 1- Aquisição de imagem de encéfalo e
medula espinhal em T2, nos planosaxial (1A e 1D) e sagital (1B e
1C)Lesões hiperintensas
ovaladas, distribuídas ao longo do corpo caloso (caloso-septal) e de
localização periventricular (seta em B), algumas coalescentes. A aparência
radiada neste plano (B) é que gerou o nome de o “dedos de Dawson” (1B). As
mesmas lesões são vistas no plano axial em A e na medula no segmento de
cervical (
1C).
Na medula elas não acometem toda a extensão do plano axial, se distribuindo em
quadrantes (seta em D), o que é importante para o diagnóstico diferencial e que
é determinado pela disposição peri-venular. (Imagem e legendas cedidos pelo Dr.
Antonio Carlos dos Santos).

Figura 2 – Imagem no plano axial em T1
de uma paciente com EMRR para ilustrar o aspecto sem contraste (fig. 2A) e as
características do reforço (2B, C e D). A seta em 1A mostra uma lesão hipointensa (1A ) que se
reforça de maneira anelar ( 2B, setas brancas). Ainda em 2B, a seta preta
mostra uma lesão justacortical, captando contraste em anel aberto (2D, seta
preta). Em
2C
e 2D as setas apontam lesões captantes de contraste de aspecto nodular. O
reforço em anel se correlaciona com uma maior destrutividade no centro da
lesão, enquanto o aspecto nodular se correlaciona com um processo inflamatório
mais homogêneo e com menor destrutividade. (Imagem e legendas cedidos pelo Dr.
Antonio Carlos dos Santos)

Figura 3- Imagens axiais de encéfalo em T1(3A e
3C) e T2(3B e 3D). A e B estão
na mesma posição, assim como C e D. Note a diferença na quantidade de lesões
visíveis em T1 e T2. Imagens
hiperintensas em T2, distribuídas nas regiões caloso-septal e periventricular
(3B) correlacionando-se com diferentes graus de destrutividade em T1 (1A ), com
a seta branca indicando lesão de destrutividade intermediária. As lesões que
não são visíveis em T1 são pouco destrutivas. As setas mostram lesões mais
destrutivas. A lesão vista junto ao ventrículo (
3C, seta branca) e imagem
correspondente em T2 (3D) é mais destrutiva, muito escura em T1, sendo
denominada “black hole” (Imagem e legendas cedidos pelo Dr. Antonio Carlos dos
Santos)

Figura 4-Imagens do mesmo paciente, no mesmo
nível, evidenciando atrofia cortiço-subcortical difusa (4A), com sulcos
aprofundados (
4C), desproporcional ao no. de placas em T1( 4B) e
ao índice de incapacidade funcional do paciente (EDSS 1.0). Corte sagital,
flair, evidenciando corpo caloso afilado na linha média e lesão caloso-septal
típica de EMRR (4D). Este é um exemplo de atrofia com poucas lesões visíveis,
provavelmente relacionada com lesões microscópicas multifocais (Imagem e
legendas cedidos pelo Dr. Antonio Carlos dos Santos).
1.10.2 Critérios de Barkhof modificados.
Estes foram estabelecidos exclusivamente para
achados à RM. Três dos quatro itens abaixo tornam o conjunto de imagens
compatível com o diagnóstico de EM.
1.
Uma lesão captando gadolínio ou nove lesões hiperintensas (T2).
2.
Uma ou mais lesões infratentoriais.
3.
Uma ou mais lesões justacorticais.
4.
Três ou mais lesões periventriculares.
Uma
lesão na medula espinhal pode substituir uma cerebral.
1.11 Líquido
Cefalorraquidiano (LCR)
Elevação
de imunoglobulina G (IgG), do índice de IgG, da taxa de síntese de IgG e a
presença de
anticorpos
monoclonais. Índice de IgG 0,7 ou maior favorece o
diagnóstico.
1.12 Diagnóstico
1.12.1 Critérios de Poser
Categoria |
Surtos |
Evidência clínica |
|
Evidência para- clínica |
Líquor
IgG/BO |
|
|
|
|
|
|
A. Definida clinicamente |
|
|
|
|
|
EMDC A1 |
2 |
2 |
|
|
|
EMDC A2 |
2 |
1 |
E |
1 |
|
|
|
|
|
|
|
B.
Diagnóstico laboratorial
de suporte definido |
|
|
|
|
|
EMSL B1 |
2 |
1 |
ou |
1 |
+ |
EMSL B2 |
1 |
2 |
|
|
+ |
EMSL B3 |
1 |
1 |
e |
1 |
+ |
|
|
|
|
|
|
C. Clinicamente provável |
|
|
|
|
|
EMPC C1 |
2 |
1 |
e |
1 |
|
EMPC C2 |
1 |
2 |
|
|
|
EMPC C3 |
1 |
1 |
|
|
|
EMPC C1 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
D. Diagnóstico laboratorial
de suporte
provável |
|
|
|
|
|
EMPSL D1 |
2 |
|
|
|
+ |
| |
|
|
|
|
|
BO/IgG = Bandas
oligoclonais ou IgG aumentada; EMCD = esclerose múltipla clinicamente definida;
EMSL= esclerose múltipla diagnosticada com evidência (suporte) laboratorial;
EMPC = esclerose múltipla clinicamente provável ; EMPSL= esclerose múltipla
provável com evidência (suporte) laboratorial
1.12.3
Critérios de McDonald
Dois ou mais episódios de manifestações
neurológicas, compatíveis com o acometimento da substância branca de qualquer
topografia (os mais freqüentes são: medula espinhal, tronco cerebral e nervo
óptico) através de um padrão surto-remissão - mpresença de BO e/ou elevação do
índice no LCR, ocorrendo em um paciente jovem - constituem o conjunto de
manifestações mais típicas de EM. Quando os paciente não preencher os critérios
diagnósticos devem ser acompanhados clinicamente e RM. Novas imagens de RM
podem ser realizadas aos 3 ou 6 meses de evolução.
1.12.4
Diagnóstico Diferencial
Neuromielitre óptica
(doença de Devic).
Encefalomielite
disseminada aguda.
Lupus eritematoso
sistêmico.
Síndrome
de Sjöegren.
Neurosarcoidose.
Outras
doenças do sistema nervoso central.
1.13 Tratamento
1.13.1
Surto
Metil-prednisolona;
plasmafére.
1.13.2
SID.
Tratamento
com imunomoduladores ou não tratamento.
1.13.3
Esclerose Múltipla Recorrente-remitente (EMRR)
Imunomodulador |
Dose |
Via de aplicação |
Posologia |
IFN Beta 1bBetaferon® |
9.6 MUI (~ 44 µg) |
SC |
Dias alternados |
IFN Beta 1a
Rebif® |
6 MUI (22 µg)
12 MUI (44 µg) |
SC |
Três
vezes por semana, em dias alternados, seguidos por dois dias de repouso. |
IFN Beta 1a
Avonex® |
|
|
|
6 MUI/ (30 µg) |
IM |
Uma vez por semana |
|
|
|
Acetato de
Glatiramer
Copaxone® |
|
|
|
20 µg |
SC |
Diária |
| |
|
|
IFN = intérferon,
MUI = milhðes de unidades internacionais, IM =
intramuscular, SC=subcutânea.
1.13.4 Esclerose
Múltipla Remitente-recorrente com Evolução Desfavorável
Mitoxantrone.
Novas
terapêuticas: anticorpos monoclonais (natalizumab, alemtuzimab), transplante
autólogo de células tronco.
1.13.5 Esclerose
múltipla progressiva secundária (EMPS) e surto-progressiva
(EMSP)
Mitoxantrone.
Ciclofosfamida.
Transplante autólogo de células tronco
hematopoiéticas.
1.13.6 Esclerose Múltipla Primária Progressiva (EMPP)
Transplante autólogo de células tronco
hematopoéticas.
1.13.7 Novos Tratamentos
No
momento há grande número de ensaios terapêuticos em realização em diferentes
países (anticorpos monoclonais: daclizumab, rituximab); associações de
imunomoduladores e imunossupressores, associações de novas drogas ativas com
imunomoduladores, transplante autólogo de células tronco hematopoéticas.