LITERATURA SOBRE ESCLEROSE MÚLTIPLA EM
PUBLICAÇÕES BRASILEIRAS E DE AUTORES BRASILEIROS
Damacio Ramon Kaimen Maciel .
A esclerose múltipla (EM), doença desmielinizante, inflamatória, crônica e progressiva, tem sido objeto de estudos no mundo todo. Pode-se afirmar que os fenômenos abordados nessa patologia não são totalmente desconhecidos. Muitos aspectos têm sido elucidados e outros ainda estão em processo de evidência. Nesse texto pretende-se traçar um breve histórico dos estudos sobre esta doença no que se refere à epidemiologia, diagnóstico e tratamento em trabalhos publicados na literatura brasileira e/ou internacional, mas de autores nacionais.
A partir das publicações internacionais de relevância na área como Robert Carswel, Jean Cruveilhier, Charcot no Séc. XIX e Poser no Século XX, em 1988 iniciam as primeiras discussões no Brasil, com a presença da EM em idades precoces (Vergani et al., 1988).
Nessa década ainda se observa uma intensificação dos achados anátomo-clínicos e suas correlações (André et al., 1989; Lancellotti et al., 1989).
Vários foram os trabalhos relacionados para esse texto no ano de 1990. Tratam das correlações direcionadas a associações da EM com outras doenças tais como a oftalmoplegia internuclear (Werneck et al., 1990) como também às semelhanças e aspectos diferenciais na imunologia da EM, polineuropatia desmielinizante inflamatória aguda e crônica, lúpus eritrematoso sistêmico, neoplasias do sistema nervoso central (Marchiori et al., 1990).
É importante registrar que nesse ano também, na literatura internacional, foram ampliados por McDonald os critérios diagnósticos propostos por Poser em 1983.
No Brasil, o diagnóstico diferencial ganhou destaque em 1991 e se verificou a intensa preocupação no aprofundamento dos estudos sobre os critérios diagnósticos (Oliveira et al., 1992; Puccioni-Sohler et al., 1995).
Estudos epidemiológicos foram iniciados na década de 90 e continuam até o presente contribuindo intensamente para as associações clínicas, fenômenos correlacionados e abordagem terapêutica já que estes estudos têm sido realizados em centros de referência no tratamento da EM (Callegaro et al., 1992, Araújo et al., 1992, Araújo et al., 1993).
Ainda na década de 90 a investigação sobre a terapêutica medicamentosa foi iniciada sendo realizados ensaios clínicos, estudos controles na tentativa de se criar um consenso de tratamento medicamentoso (Seggia, Abreu, 1992; Araújo et al., 1993; Tilbery et al., 1995).
A preocupação com a etiologia da EM levou a publicação de estudos de genótipos para determinação de possíveis genes relacionados a EM assim como a determinação de fatores de risco para o desenvolvimento da doença sob o ponto de vista genético (Rezende, Arruda, 1996). Ainda sobre a parte genética, foram realizados também muitos estudos sobre os antígenos HLA e a EM (Caballero et al., 1999).
Em 2002 são registrados na literatura nacional dois trabalhos, sendo um sobre consenso expandido da EM e o outro tratando dos aspectos históricos da EM (Callegaro et al., 2002; Moreira et al., 2002).
Nos anos seguinte dessa mesma década os estudos anteriores tiveram maior ênfase, pois novas técnicas e novos aspectos começaram a ser desenvolvidos. Neste período os estudos com associações psíquicas tais como depressão e outras alterações emocionais da EM foram iniciados e correlações medicamentosas a distúrbios emocionais foram elucidadas (Mendes et al., 2003, Haase et al., 2004). Também um estudo sobre incidência e prevalência da MS no Paraná foi identificado na literatura brasileira, nessa data (Kaimen-Maciel et al., 2003).
A partir de 1995, os pesquisadores começaram a registrar na literatura a falta de instrumentos específicos que mensurassem aspectos particulares da doença e nos Estados Unidos da América e Inglaterra, principalmente, foram desenvolvidos os primeiros instrumentos para este propósito e muitas outras partes do mundo validaram esses instrumentos para suas respectivas culturas. No Brasil, o primeiro instrumento validado para o português foi introduzido por Mendes e colaboradores, em 2004, denominado Questionário de Determinação Funcional da Qualidade de Vida na EM (DEFU), uma adaptação do Functional Assemment in Multiple Sclerosis (FAMS) desenvolvido por Cella em 1995.
Em 2006 já podemos encontrar estudos que tratam do perfil da produção científica em EM no Brasil (Araújo et al., 2006); um estudo sobre perdil clínico e epidemiológico da EM no estado da Bahia (Cardoso et al., 2006) e um estudo sobre diagnóstico diferencial da EM (Kaimen-Maciel et al., 2006).
Na atualidade tem se verificado que os estudos estão direcionados para a descoberta de fatores etiológicos e as pesquisas enfatizam os aspectos imunopatológicos merecendo destaque os estudos sobre o fator CCR5 e HLA (Brum et al., 2007, Kaimen-Maciel et al., 2007).
Muito ainda será evidenciado sobre a EM, e pode-se concluir que os centros de pesquisa estão atuando e apresentado resultados favoráveis a mudanças na forma da abordagem da EM.
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